Por Felipe Moura Brasil
No caso das escolas de samba, o quesito referente ao
conceito é o enredo. Se o enredo é de difícil leitura, o desfile inteiro fica
comprometido.
O carnaval carioca de 2015 foi didático neste ponto: as
quatro escolas que acumularam as notas mais baixas em enredo foram as quatro
últimas colocadas na apuração de quarta-feira de cinzas.
Viradouro (29,4), Vila Isabel (29,4), Mangueira (29,7) e
União da Ilha (29,7) foram o PSDB da Sapucaí: fizeram o que puderam para
complicar suas mensagens e tiveram o resultado que mereceram.
A rebaixada Viradouro fundiu dois sambas não carnavalescos
de Luiz Carlos da Vila sobre a negritude brasileira e, no caminho inverso ao
usual, fez um enredo vago em cima desse tema demasiadamente amplo, o qual a
tempestade na avenida ainda tornou mais obscuro.
A Vila Isabel não se satisfez em homenagear o maestro
paulista Isaac Karabtchevsky, cujo sobrenome nem aparece no samba para
identificá-lo de fato, e partiu para uma mistura de música clássica com a
popular, homenageando também Villa-Lobos por um lado e compositores da Vila,
como Martinho e Noel, por outro. O resultado foi uma letra longa e confusa, que
mal empolgou os integrantes da escola, que dirá a arquibancada.
A Mangueira tampouco se satisfez em exaltar as mulheres
historicamente ligadas à escola, como as donas Neuma e Zica, e resolveu apelar
para a exaltação da mulher brasileira, traçando paralelos pouco alinhados entre
a comunidade e a sociedade em geral.
A União da Ilha, então, fez uma confusão dos diabos com o
seu também vago “tributo à beleza”, misturando a natureza agredida pelo homem,
a busca dos artistas em retratar o belo, as nuances do mundo da moda, os contos
de fadas, a beleza interior e até a selfie como representação da vaidade,
tornando quase indiscernível o que eram homenagem ou crítica, humor ou
seriedade.
Já a campeã Beija-Flor, que acumulou três notas 10 em enredo
somando os 30 pontos do quesito, foi muito mais objetiva: saudou a Guiné Equatorial,
por meio da qual lançou “um olhar sobre a África”. Um olhar petista, claro, que
providencialmente omitiu a opressão do povo guinéu-equatoriano pelo ditador
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, responsável por brutais violações dos direitos
humanos, com tortura e assassinato de milhares de opositores.
A Beija-Flor é o PT da Sapucaí: o enredo da escola é de
fácil leitura e repleto de mitos como o do partido, o que resulta em vitória na
apuração; enquanto de difícil leitura é o enredo do financiamento, que pouco
interessa a jurados e eleitores.
O ministro da Informação, Imprensa e Rádio, Teobaldo Nchaso
Matomba, afirmou que a iniciativa do patrocínio partiu de “empresas
brasileiras”; e o diretor-artístico da Beija-Flor, Fran Sérgio Oliveira, disse
que a escola recebeu 10 milhões de reais das empreiteiras com negócios na Guiné
Equatorial, citando Queiroz Galvão, Odebrecht e grupo ARG. Como de hábito no
petrolão, a Odebrecht nega. E, segundo O Globo, o ditador é que teria captado
os 10 milhões de reais.
O da azul e branco de Nilópolis foi batizado Um griô conta a
história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. O griô é
um sábio ancião que guarda a história e a reproduz através das gerações. Se os
adversários do PT e da Beija-Flor quiserem vencê-los um dia, precisarão ser griôs
capazes de guardar a história verdadeira e reproduzi-la de modo mais simples e
direto para outras gerações. Caso contrário, o povo enganado continuará
cantando:
“Não entendi o enredo desse samba, amor…”
Publicado originalmente em Blog Felipe Moura Brasil - VEJA
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