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O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, durante
entrevista coletiva neste domingo
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Sem autocrítica, governo repete promessas
Parecia reprise de junho de 2013: depois das manifestações
que reuniram centenas de milhares de pessoas em todo o Brasil neste domingo, o
governo prometeu estender o diálogo, defender uma reforma política via
plebiscito e atacar as doações empresariais de campanha, conforme segue a
cartilha do PT. Faltou a autocrítica.
Desta vez, o pronunciamento foi feito pelos ministros da
Justiça, José Eduardo Cardozo e da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel
Rossetto, no Palácio do Planalto. Eles se reuniram com a presidente Dilma
Rousseff durante a tarde e foram escalados para apresentar a resposta do
Planalto aos atos. Cardozo afirmou que o governo vai anunciar "nos
próximos dias" o pacote anticorrupção prometido durante a última campanha
eleitoral. Ele não deu detalhes do programa, mas disse que o foco é o combate à
impunidade.
A promessa é semelhante àquela feita dois anos atrás, quando
manifestações também se espalharam pelo Brasil. Sem reconhecer que o governo
falhou em cumprir a promessa, Cardozo disse que o petrolão só foi descoberto
porque o governo deu independência aos órgãos de investigação. "A situação
da Lava Jato decorre claramente de uma postura governamental imediata de
assegurar investigações autônomas". Rossetto prosseguiu o jogo de cena:
"Este governo desde sempre combate à corrupção".
O governo também quer ressuscitar a fracassada tentativa de
reforma política com consulta popular para, em primeiro lugar, implementar o
financiamento público de campanha - ou seja: passar a conta para o contribuinte
e adotar um sistema que nada faz para impedir o caixa dois.
Cardozo defendeu uma "ampla reforma política lastreada
no ouvir da sociedade". "Não é mais possível que continuemos a ter o
financiamento empresarial de campanhas eleitorais. É necessário fechar
imediatamente essa porta", disse ele.
A ausência de autocrítica também se evidenciou quando o
ministro Miguel Rossetto fez uma análise da situação econômica. Ele manteve a
postura escapista e culpou a crise internacional e a seca pelo total
desequilíbrio da economia na atual gestão.
Enquanto o ministro da Justiça tentava passar a impressão de
que o governo está aberto ao diálogo com todos os setores críticos, seu colega
parecia pouco preocupado em construir pontes. Por mais de uma vez, Rossetto
afirmou que as manifestações deste domingo reuniram majoritariamente pessoas
que já não haviam votado em Dilma.
Enquanto os dois petistas falavam, brasileiros de diversas
cidades, como São Paulo e Brasília, retomavam o "panelaço" promovido
há uma semana, quando a presidente Dilma Rousseff foi à televisão discursar sobre
o Dia da Mulher. Cardozo foi indagado sobre o tema e disse apenas que
respeitava os protestos.