Por Carlos Alberto Rabaça
Pesquisa inédita do Ibope mostra que, no período de 22 anos,
o otimismo do brasileiro não ficava tão por baixo quanto hoje: 48% se dizem
pessimistas em relação ao futuro do país, enquanto 21% se declaram otimistas.
Só no governo de Fernando Collor o brasileiro se mostrou tão pessimista.
Contribui para isso a crise ética e econômica que atemoriza os cidadãos.
O mensalão e a operação Lava-Jato deflagraram um sentimento
de impotência na população. Sucessão de escândalos e trapaças está longe de ser
obra do acaso. O futuro é tão incerto que parece mais uma ameaça. Desemprego,
inflação e insegurança política deprimem o brasileiro.
Decerto, as pessoas estão moralmente confusas. A crise
brasileira se agrava, a todo momento, pelos vestígios de velhos hábitos
políticos e instituições desgastadas. O governo, por sua vez, se empenha numa
luta ideológica sem poder definir a própria ideologia. Vivemos uma cultura de
transgressão e da ausência de verdadeiros líderes.
“Crise” é uma palavra gasta porque muitos homens em altos
postos dela se servem para justificar seus interesses. Na verdade, é
precisamente numa conjuntura cheia de incertezas que acontecem ações de alta
imoralidade. A autenticidade das crises compreende situações nas quais se deve
enfrentar alternativas dignas de confiança, cujos sentidos morais são evidentes
num debate público. A alta imoralidade, o enfraquecimento geral dos valores e a
organização de atos ilícitos não necessitam de nenhuma crise pública. Problemas
dos crimes dos burocratas, do vício de alto preço e da periclitante integridade
pessoal são decorrentes da ausência de fiscalização e da transgressão
estrutural e endêmica.
Uma sociedade que, em seus altos círculos e em seus níveis
médios, é composta de uma rede de quadrilhas não produz homens de sentido moral
acentuado. Uma sociedade que é apenas superficial em seu exercício democrático
não produz homens de consciência. Uma sociedade que limita o sentido do “êxito”
ao dinheiro grosso e que eleva os recursos públicos ao plano de um valor
particular, produzirá o negocista impiedoso e o negócio escuso. É claro que
pode haver homens corruptos em instituições honestas, mas quando as
instituições também corrompem muitos homens que vivem e trabalham nelas, então
são necessariamente corruptas.
As empresas governamentais não encerram maiores imoralidades
do que as empresas de negócios. Os políticos só podem conceder favores
financeiros quando há homens, na esfera privada, dispostos a aceitá-los. E
esses só podem procurar favores políticos quando há homens na política que
possam concedê-los. Esses fatos é que dão origem à desconfiança da população,
que busca encontrar e praticar os meios políticos da honestidade, para
objetivos moralmente sadios.
Publicado no jornal “O Globo” de 15 de junho de 2015
Fonte: Clube Militar
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Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor
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