Por Carlos I.S. Azambuja

A UNIÃO SOVIÉTICA PRESTOU UM GRANDE SERVIÇO À HUMANIDADE:
COMPROVOU, NA PRÁTICA, QUE O SOCIALISMO NÃO FUNCIONA
- O Advento do Socialismo
A sofreguidão de Marx e Engels, no Século passado, prevendo
o advento do socialismo não é difícil de explicar, pois a expectativa da
realização de um ideal revolucionário não pode ser postergada para além da vida
do revolucionário. Se este não tiver em vista a possibilidade do êxito do seu
esforço ainda em sua geração, estará, na verdade, adotando um credo religioso.
A esperança da realização de um ideal pelas gerações seguintes eqüivale à fé na
vida após a morte, à crença no sobrenatural. O revolucionário luta para que ele
e seus contemporâneos façam a revolução e se convence de que sua expectativa é
acertada.
As relações de produção capitalistas surgiram e se
desenvolveram, na Europa Ocidental, nas próprias entranhas da formação social
feudal. Isso aconteceu pela via de um processo inteiramente espontâneo. O
capital se acumulou no âmbito do comércio e da produção artesanal e agrícola, e
deu origem a empresas que passaram a explorar operários assalariados. A
exploração da força de trabalho renovava continuamente os ciclos de acumulação
do capital, com o fortalecimento e expansão das relações de produção
capitalistas. No interior da formação social feudal surgiram e se consolidaram
as novas classes sociais: o burguês empresário e o operário assalariado.
Contudo, a expansão das relações de produção capitalistas
não poderia deixar de se atritar e de se chocar com a prevalência das relações
de produção feudais e do aparelho jurídico-político (superestrutura) nelas
apoiado e que as defendia. As revoluções burguesas superaram essa contradição
histórica ao eliminar as relações de produção feudais – com maior ou menor
radicalidade – e ao erigir um aparelho institucional jurídico-político
compatível com a prevalência das relações de produção capitalistas.
Nenhum dos protagonistas desse processo pensou, sequer
vagamente, em algo que pudesse ser entendido como “construir o capitalismo”. O
capitalismo se constituiu espontaneamente. Não surgiu por efeito de um plano,
indispensável a qualquer construção. Ao invés de um plano com um grau mínimo de
deliberação centralizada, o surgimento do capitalismo se efetivou como
resultado imprevisto e imprevisível da ação dispersa de muitos milhares e
mestres artesãos, agricultores, comerciantes e empresários variados. Do
intercâmbio entre eles, milhões de vezes repetido, tomou corpo e ganhou
consistência o mercado apropriado às características do capital.
- A Construção do Socialismo
O capitalismo não foi construído. Chegou sem ser anunciado.
Enquanto a forma de propriedade permanece privada na
revolução burguesa, na revolução socialista sucede o contrário: a propriedade
privada é abolida e substituída pela propriedade social. Mas, enquanto a
revolução burguesa encontra as relações de produção capitalistas preparadas
dentro do regime feudal, a revolução socialista não recebe do regime
capitalista relações de produção socialistas constituídas. As relações de
produção socialistas teriam de ser criadas, o que não se daria por um processo
espontâneo semelhante ao da criação das relações de produção capitalistas. Ao
contrário, seria imprescindível a ação deliberada e consciente dos homens.
Desta situação decorriam as enormes tarefas construtivas que a revolução
socialista reclamava.
A história da União Soviética veio mostrar o quanto a
construção do socialismo é problemática.
A tentativa de construção do socialismo na URSS foi feita
por meio de arremetidas e frustrações sucessivas. A primeira tentativa, logo
após a Revolução Bolchevique, foi a que veio ser conhecida como comunismo de
guerra, que só fez agravar a carência. Numa virada de 180 graus, em 1921 o
comunismo de guerra foi abolido e seguiu-se a NEP (Nova Política Econômica),
que praticamente restabeleceu o mercado, liberando os preços. Depois, em mais
uma virada de 180 graus, à NEP, a partir de 1929, já sob o domínio de Stalin,
sucederam-se os planos qüinqüenais, que instituíram um planejamento
centralizado totalitário, a industrialização acelerada e, no campo, a coletivização forçada. Por causa da
industrialização acelerada, acompanhada pela coletivização compulsória e quase
integral da agricultura, milhões morreram de fome. Essas foram as relações de
produção, supostamente socialistas, impostas à União Soviética durante cerca de
70 anos.
Sobre esse aspecto, assinale-se que enquanto na economia
capitalista impõe-se como obrigação implacável a redução de custos, de tal
maneira que a empresa que não o faz perde na concorrência e é eliminada do
mercado, na economia socialista planejada, ao estilo soviético, o aumento dos
custos tornou-se absurdamente vantajoso e foi estimulado, uma vez que permitia
o cumprimento do plano. O planejamento favorecia absurdos, que impediam a
prevalência da racionalidade econômica.
A eliminação completa do mercado de bens de produção tornava
as empresas dependentes dos fornecedores designados pelo plano. Qualquer falha
no fornecimento planejado gerava um impasse sem saída, uma vez que não existia
mercado capaz de indicar fornecedores substitutos. Semelhante ausência de
alternativas engendrou o hábito das empresas se proverem de estoques excessivos
de toda a ordem de insumos e também de força de trabalho excessiva, tendo em
vista os picos de produção.
A formação de estoques desmedidos também foi estimulada pelo
gigantismo das empresas criadas pelos planos qüinqüenais.
A ausência de mercado propiciava as condições em que
produtos caros e de baixa qualidade podiam circular por muito tempo, sem que
nenhuma providência fosse tomada para corrigir deficiências gritantes. Os
consumidores não dispunham de ofertas alternativas e inexistiam canais democráticos
que viabilizassem discussões e críticas. Nas condições monopolístas em que
operavam as empresas estatais, não havia incentivo para aumentar a
produtividade do trabalho e elevar a qualidade dos produtos.
Todos esses fatores confluíram para o retardo tecnológico ou
mesmo para a estagnação da economia. Uma vez que não precisavam enfrentar
desafios de concorrentes nem as críticas de consumidores, prevalecia a
tendência de mexer o menos possível com inovações tecnológicas, que costumam
eliminar empregos, provocar alterações na hierarquia de cargos e funções,
obrigar a aprendizagens cansativas, e assim por diante.
Cristalizou-se, assim, uma atitude de preguiça tecnológica
abrangente das mais altas direções políticas e econômicas até as bases
operárias. Com exceção de setores com significação estratégica do ponto de
vista militar, o retardo tecnológico e administrativo colocou a União
Soviética, na década de 80, em desvantagem já larga e progressivamente agravada
diante dos países capitalistas desenvolvidos.
A economia centralmente planejada deu lugar a uma burocracia
específica, que se avantajou, assumindo proporções muito maiores do que aquelas
derivadas de exigências estritamente técnicas, acumulou privilégios e
transformou-se em uma nomenklatura.
O padrão desenvolvido na União Soviética repetiu-se nos
demais países do chamado socialismo real. Mesmo a Checoslováquia e a Alemanha
Oriental, que partiram de patamares mais elevados, não escaparam a esse padrão
que, no final do percurso, impôs o achatamento e a prostração.
Todavia, a tendência à estagnação não teve causas
exclusivamente econômicas. Estas foram tremendamente agravadas pela ausência de
democracia. Por outro lado, o regime de partido único não tem fundamentação no
que escrevram Marx e Engels. No Manifesto Comunista há uma referência aos
partidos operários já constituídos, sem nenhuma proposição de que os comunistas
devessem varrê-los da história.
A linha de ação dos bolcheviques, de tomada do poder através
de um golpe, sem consulta ao Conselho dos Sovietes, do qual faziam parte, bem
como o fechamento da Assembléia Constituinte em janeiro de 1918, contribuíram
decisivamente e conduziram ao beco sem saída do partido único. A partir daí, a
ditadura do partido, substituta da ditadura do proletariado – que nunca chegou
a existir – e a autocracia stalinista, foram conseqüências lógicas.
Todas essas debilidades sistêmicas sofriam agravamento
insuportável com a corrida armamentista a que a União Soviética estava obrigada
pela Guerra Fria, sobretudo na década de 80, quando Ronald Reagan expandiu o
orçamento militar dos EUA e lançou o programa conhecido como Guerra nas
Estrelas.
A última tentativa reformista, a perestroika, foi o episódio
derradeiro, e terminou em fiasco. Ao assumir a Secretaria-Geral do PCUS, em
1985, Mikhail Gorbachev tinha em vista um projeto de reforma do sistema
soviético com o objetivo de fazê-lo funcionar. O que ele não previu é que,
caminhando em campo minado, cada passo à frente provocaria novas e piores
explosões, até que a situação tornou-se incontrolável.
Depois de 70 anos de ausência de democracia e de mercado,
não se dispunha de experiência para a criação de instituições democráticas e
mecanismos próprios da economia de mercado. As relações burocráticas de planejamento
centralizado foram substituídas pelo vale-tudo das relações mafiosas e o
partido entrou rapidamente em processo de desagregação e, com ele, debilitou-se
de forma irreparável a capacidade de direção do Estado e do próprio partido,
ocorrendo um fato sem precedentes na história: o império de uma superpotência
foi desmantelado e deixou de existir sem que ela tivesse sido derrotada no
campo de batalha.
No caso da China a história não é muito diferente. Basta
focalizar o fracasso das comunas rurais e o retorno à agricultura privada. A
China se distingue da União Soviética por ter sido submetida por menos tempo ao
planejamento centralizado totalitário e dispor de possibilidades reformistas
aparentemente viáveis.
Finalmente, parece ter ficado claro ser inviável a
estratégia gradualista de criação,
dentro do sistema capitalista, de uma dualidade de poderes, na medida em que
isso depende da propensão revolucionária do proletariado.
- A Classe Operária, Sujeito Histórico da Revolução
Socialista
A classe operária sofreu, nos últimos 30 anos, tão grandes
mudanças em sua densidade social e em sua configuração que, hoje, deve-se
submeter a graves interrogações sua capacidade para realizar a missão que Marx
e os marxistas sempre lhe confiaram com a convicção do indubitável: a missão se
ser o sujeito histórico da revolução socialista.
Mais do que a objetividade científica é a propensão utópica
que vai se manifestar na exaltação dos atributos do proletariado para redimir
toda a humanidade. Por isso mesmo, Marx e Engels não foram capazes de avaliar a
grandiosidade da tarefa de que o incumbiam. Ou seja, a tarefa única na história
humana de fazer uma classe explorada e oprimida se converter em classe
dominante, capaz de modelar a sociedade à sua imagem e semelhança.
A exaltação idealizante do proletariado tornou-se uma
constante na literatura marxista. Seria a única classe a substituir as visões
parciais pela visão da totalidade social. O proletariado seria um sucedâneo do
Espírito Absoluto hegeliano.
Marx e Engels apostaram no proletariado. Conforme salientam
enfaticamente no Manifesto Comunista, notaram que, ao contrário de outras
classes, o proletariado cresce com o crescimento da grande indústria. A
industria fabril concentra e disciplina os operários. Com o desenvolvimento do
capitalismo, como escreveu Marx em O Capital, aumenta também a revolta da
classe operária. Assim, o modo de produção capitalista preparava seus próprios
coveiros. A classe operária se incumbiria de dar fim à exploração à qual era
submetida e, ao se emancipar, emanciparia também toda a humanidade.
Mais tarde, Lenin afirmou que, espontaneamente, a classe
operária não chegaria à consciência revolucionária de classe socialista.
Deixada a si mesma, a classe operária somente seria capaz de alcançar a
consciência sindicalista, a consciência da necessidade da luta conjunta por
reivindicações econômicas. Ou seja, de
seus interesses espontâneos imediatos. Seguindo um curso apenas espontâneo,
seria inevitável a subordinação do proletariado à ideologia burguesa por
intermédio da consciência sindicalista. Uma vez que a teoria socialista era
resultado unicamente da atividade da intelligentzia, a consciência
revolucionária socialista deveria ser introduzida na classe operária, trazida a
ela de fora para dentro. Essa
argumentação visava demonstrar a necessidade do partido revolucionário, que se
dedicasse não só a incentivar reivindicações econômicas, à maneira dos
sindicatos, porém, prioritariamente, a introduzir no proletariado a consciência
de classe revolucionária.
Rossana Rosanda fez uma crítica filosófica à tese leninista
do “Que Fazer?” acerca da introdução da consciência socialista de fora para dentro do proletariado. A tese estaria
em contradição com o princípio materialista enunciado por Marx segundo o qual é
o ser que determina a consciência e não a consciência que determina o ser.
Portanto, a consciência socialista do proletariado não pode ser produto da ação
externa de intelectuais, mas deveria derivar de seu próprio ser.
Todavia, mais a fundo, iremos encontrar algo que os teóricos
revolucionários do marxismo evitaram admitir e, no entanto, nas circunstâncias
atuais, tornou-se impossível negar. Ou seja, que a classe operária éontologicamente
reformista. Toda a experiência histórico-mundial demonstra que, dia a dia, no
transcurso cotidiano de sua existência, a classe operária não ultrapassa a
fronteira da ideologia do reformismo.
Quanto mais poderosa e desenvolvida, mais reformista é a sua
conduta política, maior sua preferência pelos benefícios de possível obtenção
dentro do regime capitalista e mais taxativa a sua rejeição a iniciativas
revolucionárias. Ou seja, a condição ontológica reformista da classe operária
não se enfraquece, mas se fortalece com o seu desenvolvimento.
Semelhante comportamento não é contraditório com a posição
de classe do proletariado no quadro do modo de produção capitalista.
Robert Kurz percebeu o fato essencial de que o movimento
operário é parte integrante do mundo burguês da mercadoria e que constitui
terrível engano dos marxistas atribuir-lhe uma essência anticapitalista (“O
Colapso da Modernização. Da derrocada do socialismo de caserna à crise da
economia mundial”, Editora Paz e Terra, 1992).
O crescimento do proletariado é compatível com a
estabilidade do sistema capitalista e serve de índice de seu progresso. Quanto
mais operários a produzir mais-valia, mais florescente o regime burguês. Ao
invés de criar condições revolucionárias, o crescimento do proletariado
consolida a formação social capitalista, tanto sob o aspecto puramente
econômico, como também sob todos os aspectos sociais, inclusive os políticos e
os ideológicos. O proletariado não constitui um corpo estranho na estrutura
socioeconômica burguesa, porém a integra
normalmente.
O oposto se dava com a burguesia industrial no quadro do
modo de produção feudal. O seu crescimento a colocava em contradição também
crescente e, por fim, em choque com o regime feudal.
Enquanto a burguesia foi uma classe efetiva e eficientemente
revolucionária, o revolucionarismo do proletariado é, por enquanto, inexistente
ou, quando menos, problemático. Constatação histórica da qual os marxistas
precisam extrair as devidas conclusões, se quiserem restabelecer a coerência
teórica que hoje lhes falta.
Constitui uma contradição logico-formal reconhecer que o
proletariado nunca alcança, por si só, espontaneamente, a consciência de classe
revolucionária e, no entanto, atribuir-lhe a missão histórica de fazer a mais
radical das revoluções. Ora, uma classe que é impotente para formar a própria
consciência revolucionária só pode ser considerada, pela natureza do ser real,
como uma classe também impotente para fazer a revolução.
Lenin e seus companheiros bolcheviques se esforçaram para
introduzir a consciência revolucionária no proletariado russo. Todavia, no
momento da tomada do poder, em novembro de 1917, não mais que um dentre os 21
membros do Comitê Central do Partido Bolchevique procedia das fileiras da
classe operária.
- O Dilema Reformismo x Revolução
Sobre o dilema Reformismo x Revolução, deve ser assinalado
que esse é, justamente, o problema tático e estratégico mais sério com que se
defronta o marxismo. Até agora, com a experiência acumulada de século e meio,
não há um único exemplo de revolução socialista que tenha se seguido a uma
prática reformista. O reformismo, absolutamente, em nenhum caso, preparou
qualquer revolução.
As revoluções vitoriosas, pretensamente socialistas, sempre
se seguiram a guerras civis ou insurreições, ou seja, à prática de lutas
armadas. Esse foi o caso da China, do Vietnã, de Cuba. Quanto à Rússia, o
Partido Bolchevique pregou sempre a luta armada e preparou seus militantes para
ela, o que os habilitou a assumir a liderança revolucionária nos meses
decisivos de março a novembro de 1917.
Disso se poderia extrair a recomendação fácil de que os
revolucionários marxistas não deveriam ficar indecisos quanto ao
desencadeamento da luta armada. No entanto, aí está o problema. Para ter êxito,
a luta armada só pode ser travada em condições determinadas. A concepção de
luta armada incondicionada conduz aos piores desastres, como o demonstra a
experiência de tantos países, inclusive o Brasil.
Em conseqüência, se não há condições favoráveis à luta
armada, só resta aos partidos revolucionários a prática reformista, se não
quiserem acomodar-se na inatividade. E a prática reformista dos revolucionários
não se distingue essencialmente da prática reformista dos reformistas. Mesmo
que se distinga em alguma coisa, como às vezes acontece, isso não muda o
resultado, que até agora tem sido o de inabilitar a classe operária à luta
revolucionária, quando, afinal, chegam os momentos aparentemente propícios.
Talvez no futuro seja possível acelerar a revolução através de reformas. Até
hoje tem sido um problema estratégico sem solução.
Ainda que se equivocassem seriamente acerca da tendência
revolucionária do proletariado e o incumbissem de uma missão histórica fora do
seu alcance, Marx e Engels acertaram plenamente quando nele apostaram, pois ele
cresceu durante cerca de um século, concentrado e organizado pelas grandes
empresas industriais, de transportes, comunicações e outros serviços. Todavia,
um novo quadro da estrutura social está sendo desenhado pela mais recente
revolução tecnológica e por outros fatores, impondo também uma nova
configuração do proletariado, imensamente distanciada daquela que Marx e Engels
conheceram.
- Conceito de Ditadura do Proletariado
No Manifesto Comunista, seus autores definiram o poder
político como o poder organizado de uma classe para opressão de outra e
previram a conquista de um Estado que viria a ser o proletariado organizado
como classe dominante. Posteriormente, a atenção de Marx voltou-se para a
máquina do Estado-burguês, que não seria adequada ao Estado-operário. Por isso
mesmo, deveria ser destruída pela revolução proletária. Em particular, o
proletariado se desfaria da burocracia e do Exército permanente. Com o advento
do proletariado à condição de classe dominante, o Estado deixaria de pairar
acima da sociedade. Submetido à sociedade, proletarizadas, as forças que o
Estado extraiu da sociedade seriam devolvidas a esta, com o que se iniciaria o
processo de extinção do próprio poder estatal.
A idéia de uma sociedade sem Estado, isenta da tutela de um
órgão nascido dela, mas superior a ela, previa um período de transição
caracterizado por um governo proletário ditatorial, preparatório da sociedade
finalmente liberta do Estado. Em torno dessa questão se opera a disjunção entre
marxismo e anarquismo. Em oposição aos adeptos deste último, Marx e Engels
fizeram da ditadura do proletariado um dos pontos fundamentais de sua
proposição doutrinária. Marx afirmou que essa ditadura somente constitui a
transição à abolição de todas as classes e à sociedade sem classes.
Lenin enfatiza que ela será um Estado em extinção e deverá
fenecer num processo paulatino. Nem extinção imediata do Estado, como
pretendiam os anarquistas, nem um Estado democrático burguês como queriam
Kautsky e seus seguidores.
Todavia, após a tomada do poder, em novembro de 1917, Lenin
e os bolcheviques tiraram da agenda a questão do Estado transitório
despolitizado e da extinção paulatina de suas funções. O que se colocou sempre
no topo das prioridades foi o contrário, ou seja, o fortalecimento do exercício
ditatorial do poder da classe operária, de tal maneira que o regime político
unipartidário e o sufoco de toda divergência apareceram quase como necessidade
lógica.
A dominação de classe através do Estado deu destaque ao
exercício da coerção, à imposição de certa ordem econômico-social por meio da
força legitimada.
A ditadura do proletariado, parece não haver dúvida,
torna-se inviável se o Estado não puder soldar a função coercitiva à
legitimidade decorrente da aceitação consensual pelas classes sociais que
pretende representar e dirigir. A carência dessa aceitação consensual
legitimadora provoca a exacerbação dos instrumentos coercitivos do Estado,
incita-o à violência contra sua própria base social de apoio. A hegemonia deixa
de existir e se converte em opressão despótica. Daí a face pesadamente tirânica
de uma ditadura, que deveria, segundo o cânone marxista, iniciar a extinção de
toda ditadura classista.
- O Internacionalismo
No Manifesto Comunista, Marx e Engels resumiram num pequeno
parágrafo, com grande força retórica, o seu pensamento sobre o internacionalismo
da luta do proletariado: “Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tomar
aquilo que não têm”.
Convencidos de que a natureza internacional do proletariado
tinha proeminência com relação à vivência nacional concreta e que, nas
condições de desenvolvimento mundial do capitalismo, a revolução proletária não
poderia deixar de resultar da ação conjugada dos operários dos países mais
avançados, Marx e Engels consideraram, com absoluta prioridade, a missão de
educar os proletários de todos os países para a defesa do internacionalismo e
para a prática da solidariedade sem consideração de fronteiras. O
internacionalismo deveria ser um traço fundamental da atitude proletária em
oposição intransigente ao nacionalismo da ideologia burguesa. Marx e Engels
estavam convencidos de que a natureza internacional de sua condição de classe
prevaleceria na consciência dos operários e os levaria a repudiar as posições
burguesas de hostilidade entre nações.
Essas idéias tiveram tradução prática na fundação e na
atuação da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional).
Conferindo à luta de classes o papel de “motor da história“,
era preciso que Marx e Engels encontrassem as mediações que vinculavam a esse
“motor” as engrenagens das questões propriamente nacionais. Adotando o
princípio de defender as nações oprimidas e de, nelas, distinguir os interesses
particulares das massas trabalhadoras, os fundadores do marxismo deram a
partida à abordagem de um problema que se revelaria intrincado e de difícil
solução para os marxistas das gerações seguintes. Propugnar causas de caráter
especificamente nacional, em ser nacionalista, mas também internacionalista, o
que nem sempre encontrou expressão política suficientemente clara e coerente do
ponto de vista teórico e prático.
Ao eclodir a II Guerra Mundial, em agosto de 1914, a bancada
de 110 deputados social-democratas do Reichstag, na Alemanha, aprovou, na
sessão de 2 de dezembro, os novos créditos solicitados pelo governo doKaiser
Guilherme II.
Nos demais países envolvidos no conflito, os partidos
social-democratas adotaram atitude idêntica à da social-democracia alemã. Em
cada país beligerante, os partidos filiados à II Internacional esqueceram as
resoluções dos congressos da organização sobre a condenação à guerra e a ação
solidária entre os operários dos países adversários e apoiaram os respectivos
governos. A II Internacional, então, deixou de existir.
Isso porque, ao condenarem a guerra, os social-democratas
separaram as massas trabalhadoras de seus países. Estas aceitaram a guerra com
entusiasmo, embora implicasse a matança recíproca entre trabalhadores, que, de
acordo com os princípios socialistas, deveriam agir solidariamente como irmãos
de classe. Ao contrário do que afirmaram Marx e Engels no Manifesto Comunista,
os operários faziam questão de ter pátria e lutar por ela, ainda que numa
guerra declarada por governos reacionários. Operários alemães, ingleses,
franceses, russos, austríacos e outros, colocaram a pátria acima da classe,
ainda que fosse a pátria comandada pela burguesia. E impeliram os seus partidos
social-democratas a fazerem o mesmo.
Iniciada com uma perspectiva internacionalista, a revolução
bolchevique se exauriu na sua marcha e recuou para a fórmula da revolução em um
só país. Foi otermidor stalinista.
Diversas explicações já foram dadas buscando esclarecer
realidade tão inesperada e enfrentar a gravíssima dificuldade conceitual dela
decorrente, no quadro da teoria marxista da revolução. Assim é que já se falou
de aristocracia operária, capitalismo organizado, estabilização capitalista
relativa e hegemonia ideológica burguesa. No segundo pós-guerra viriam as
cogitações suscitadas pelo Estado do Bem-Estar Social. No entanto, seria
preciso que o tempo corresse ainda mais um pouco para que se chegasse à
conclusão definitiva acerca do reformismo ontológico da classe operária.
Por fim, a União Soviética ruiu por força da inviabilidade
sistêmica. Era uma questão de tempo que a inviabilidade atingisse o ponto em
que o sistema não pudesse continuar a operar . Não se deve atribuir à Guerra
Fria a causa principal da derrocada soviética. Ela apenas apressou a chegada
desse ponto insustentável.
Dados Bibliográficos:
“Marxismo sem Utopia”, Jacob Gorender, 1999, Editora Ática
__________________
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.
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