Por Olavo de Carvalho

Chavões e frases feitas são afirmações gerais de validade
muito relativa, a que você apela como premissas autoprobantes para sustentar
outras afirmações que em geral não têm validade nem mesmo relativa. São as
ferramentas de eleição do automatismo mental, criadas para você pensar que está
pensando quando na verdade está apenas falando. São o Petit Larousse do
psitacismo.
O Príncipe de Maquiavel, o Manifesto Comunista e as obras de
Antonio Gramsci são depósitos clássicos onde os necessitados sempre encontram
as fórmulas de que necessitam para realizar, de novo e de novo, a proeza de não
entender coisíssima nenhuma.
O prestígio do maquiavelismo é algo que não cessa de me
deslumbrar. Como é possível que tantas pessoas aparentemente inteligentes
continuem seguindo com devoção de coroinhas as lições de sucesso de um bobão
cronicamente fracassado?
E como é possível alguém continuar acreditando na teoria
marxista da luta de classes depois que Lênin demonstrou, por palavras e atos,
que se queriam mesmo uma revolução proletária era preciso realizá-la sem
proletários?
Desde que Jim Fixx, o inventor dos exercícios aeróbicos, morreu
de ataque cardíaco em pleno jogging, aos 52 anos de idade, comecei a desconfiar
que todas as fórmulas infalíveis são um perigo para a humanidade. A verdade é
matéria de intelecção direta, o ato mais individual e intransferível que
existe. Tão logo se cristaliza numa fórmula uniformemente repetível, a fórmula
se torna o melhor pretexto para não ter intelecção nenhuma.
O sinal mais visível de esgotamento de uma corrente de
idéias é quando seus porta-vozes insistem em apegar-se aos seus chavões consagrados justamente nas horas de desespero e confusão
em que essas chavões se relevam mais deslocados da situação concreta, mais
incapazes de descrever o que está se passando.
Quando noventa e três por cento dos brasileiros expressam
claramente seu desprezo ao governo Dilma, não falta nos altos escalões do
esquerdismo quem diga que isso é a “elite” voltada contra “o povo”. Nunca
imaginei que, mesmo no mais excelso patamar de desenvolvimento econômico
concebível, pudesse uma nação ter sete por cento de povo e noventa e três por
cento de elite.
Em plena efervescência geral contra a roubalheira petista,
Frei Betto, André Singer e mais dois bonecos de ventríloquo se reúnem na
Apeoesp para discutir “a ameaça conservadora aos direitos sociais”, quando é
patente que em todos os protestos populares anti-Dilma ninguém disse uma
palavra contra “direito social” nenhum, exceto o direito social de meter a mão
nos cofres públicos.
Quando milhões de brasileiros estavam batendo panelas em
protesto contra o último discurso da presidenta, um líder petista, com ares de
quem revela preciosa inside information, afirmou “haver indícios” de que os
partidos de oposição haviam “financiado o panelaço”. Até agora me pergunto
como, por que meios, mediante quais artifícios bancários esotéricos seria
possível financiar um panelaço.
E, é claro, não poderia faltar quem, rastreando as pistas
mais sutis e inefáveis, visse no panelaço a mão sinistra do governo de
Washington. William F. Engdahl, o Emir Sader Americano, nosso já velho
conhecido (veja Sob as ordens do inimigo), jura até que o “Movimento
Passe Livre” foi inventado pelo sr. Joe Biden para “desestabilizar o governo
Dilma Rousseff”, quando no Brasil até as crianças sabem que foi criado pelo
próprio governo Dilma Rousseff para desestabilizar a administração estadual
paulista.
Em suma, aconteça o que acontecer, o cérebro da esquerda, em
avançado estado de decomposição, já não sabe senão repetir os mesmos chavões de
sessenta, setenta anos atrás, desejando ardentemente que a mentira repetida não
apenas seja acreditada, mas adquira, pela força mágica da repetição, a virtude
transfigurante de uma profecia auto-realizável.
É verdade que a debacle intelectual não traz necessariamente
a derrota política. Ao contrário. A própria história do PT mostra que é
possível um partido alcançar o cume do sucesso político justamente numa época
em que, intelectualmente, o seu discurso já estava morto e enterrado. Mas,
quando a glória política começa a declinar, não há sinal de impotência mais
deplorável e patético do que o esforço de apegar-se, retroativamente, a um
discurso já mil vezes desmoralizado. As mentiras repetidas podem, às vezes,
passar por verdades. Mas, como todos os utensílios, têm um prazo de validade
limitado.
Publicado no site Mídia Sem Máscara
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