
1 – Adolescentes cometem apenas 1% dos crimes
Já ouviu falar aquelas frases do tipo “todo macho é homem
mas nem todo homem é macho”? O mesmo se aplica aqui. Dos jovens a minoria
comete crimes, cerca de 1%. Mas entre os adultos também é a minoria comete
crimes. Se pegarmos a população geral em 2012 (aprox. 200 milhões), subtrairmos
dela o número de adolescentes (21 milhões), e estimarmos quantos por cento
dessa galera estava atrás das grades (514.582), chegaríamos a um número de
0,28%. Então o que? Vamos parar de prender adultos por isso? Entre os adolescentes,
mas também entre os adultos, menos 1% de cada um dos grupos comete crimes. Isso
é a relação adolescente por crime. E a relação crime por adolescente? Como
fica? Não, os adolescentes não são responsáveis por apenas 1% dos crimes e sim,
por baixo, 16% deles, o que é no mínimo probabilisticamente esperável, uma vez
que eles representam apenas 11% da população, mas não para por aí! O número de
jovens cumprindo medidas socioeducativas cresceu o triplo entre 2010 e 2012
(30%) se comparado ao quanto cresceu a população carcerária (18 anos pra cima)
(10%).
2 – Os menores não estão impunes no Brasil
Verdade quando você chama apenas os adolescentes (entre 12 e
17 anos) de menores. Entretanto é necessário ressaltar que nossas penas para
esses são irrisórias se comparadas a países como Costa Rica, Paraguai,
Inglaterra ou Estados Unidos. Em alguns países os menores podem receber penas
de 8 ou 15 anos e em outros eles podem ser
julgados como adultos de acordo com o crime, como na França. Enquanto
aqui no Brasil o menor fica preso por no máximo 3 anos. Isso é punição?
3 – A média mundial é 18 anos
Esse argumento se refere a idade de responsabilidade penal
adulta, onde independente do crime que a pessoa cometeu ela vai ser julgada
como adulta em todas as instâncias. Sim, é verdade, a média mundial de
responsabilidade penal adulta é mesmo 18 anos. Mas por 2 motivos esse argumento
fraqueja. O primeiro é que tentar defender o status-quo baseado nessa premissa
qualifica falácia ad populum. Ou seja, devemos adotar essa idade apenas porque
a maioria adota. Isso é uma falácia lógica. Se a maioria dissesse que a partir
dos 2 anos de idade todos são adultos estaríamos agora jogando criancinhas nas
cadeias? O segundo ponto é que muitos dos países que adotam a responsabilidade
penal adulta em 18 anos não são tão inflexíveis quanto a nossa legislação com
essa idade. Como já citei antes, além de possuírem para os jovens penas
análogas as penas adultas brasileiras, muitos países abrem mão da
responsabilidade penal juvenil dependendo do crime.
4 – Cadeia não é solução
As pessoas que utilizam esse argumento se baseiam em 2
dados. O primeiro é que o índice de reincidência das instituições
socioeducativas é de apenas 20% e o segundo é que o índice de reincidência nas
cadeias é de 70%. Se você levar em conta que só ficam nessas “casas” uma
população entre 12 e 17 anos de idade (6% da expectativa de vida de um
brasileiro) e também o período de reclusão, impossibilitando a reincidência,
não era de se esperar que realmente houvesse mais reincidência no regime
responsável por prender as pessoas num período de 75% de suas vidas do que num
que as prende num período de 6%? Parece bem mais lógico atribuir a pouca
quantidade de tempo que passamos na adolescência a baixa reincidência do que a
qualidade do sistema. Até porque rebeliões e desordens são frequentes nos
sistemas socioeducativos e em alguns deles os menores já estão utilizando
regras do PCC para dominar as fundações. Se as cadeias não são a solução, tão
menos é o sistema socioeducativo. E se as cadeias são tão ruins, devemos melhorar
as cadeias e não descartá-las, não queremos soltar todos os bandidos, certo?
5 – Melhor investir em educação do que em presídios
Não se resolve um problema de curto prazo tomando uma ação
de longo prazo. Da mesma forma que não se socorre um acidentado no meio da rua
planejando campanhas de publicidade a favor do cinto de segurança, não é nem um
pouco coerente deixar de prender marginais para investir em educação. Devemos
fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. O fato de ser mais barato para o estado
manter um aluno do que um detento só mostra a inversão de valores que estamos
enfrentando e explicita a necessidade de uma reforma no nosso sistema penal,
seja colocando o preso pra trabalhar, seja privatizando as cadeias ou seja
diminuindo o gasto do estado com os presos. E não, os adolescentes não vão
aprender muita coisa na fundação casa, no máximo vão aprender química com os
coleguinhas, química aplicada ao narcotráfico. Melhor seria mandarem os
infratores pra cadeia e transformarem todas as fundações casa em escolas.
6 – Os EUA não são um exemplo a ser seguido.
Apesar de possuir a maior população carcerária do mundo, ele
está 32 posições inferiores ao Brasil no índice de criminalidade mundial. Teve
decrescimento dos crimes violentos de 4,4% entre 2012 e 2013 e consegue em uma
megalópole como Nova York, comemorar 11 dias consecutivos sem homicídios, mais
fácil chover hambúrguer do que isso ocorrer em São Paulo ou no Rio de Janeiro.
O Brasil aumentou entre 2011 e 2012 7,6% em crimes violentos. Por que não
seguiríamos os EUA?
7 – Não vai diminuir os crimes
A cadeia serve para conter os crimes e não diminuir os
crimes, isso porque a cadeia é uma medida pós-crime e não preventiva. A única
forma da cadeia diminuir os crimes é através do medo, o que talvez seja o caso
dos EUA (que possui até pena de morte), e isso acontece porque a maioria dos
crimes não são atos consequentes realizados na melhor parte do dia, mas medidas
impulsivas tomadas por pessoas descontroladas que não pensam muito nas
consequências futuras, tão menos na pena que irão receber. No que se trata de
impor medo como fator preventivo ao crime, está claro que as cadeias do Brasil
são ineficientes, mas não tão ineficientes quanto o sistema socioeducativo,
onde você só passa 3 anos. A maior prova disso é o aumento gradativamente maior
de adolescentes entrando em medidas socioeducativas comparado aos adultos
entrando em penitenciárias (já citado)
8 – Convenção com a ONU/Cláusula Pétrea
Artigo 1 da constituição federal de 1988, parágrafo único: ”
Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente” 83% da população concordam com a redução da maioridade penal
(IBOPE), isso por baixo, segundo o CNT/MDA são 92,7% de pessoas. Sendo um
estado democrático de direito, a democracia deveria falar mais alto que
qualquer convenção ou cláusula.
9 – As cadeias estão lotadas
Os sistemas socioeducativos também. Em termos de economia,
ampliar ambos os sistemas e ampliar duplamente um sistema apenas é equivalente.
Talvez seja até mais lucrativo.
10 – O adolescente não tem capacidade cerebral pra decidir
as coisas
A capacidade de decisão não é resultado apenas da maturação
cerebral, mas uma síntese entre a cultura, os aprendizados, a compreensão e os
fatores físico-biológicos. Além disso, não existe uma idade mágica em que todas
as funções cerebrais estão devidamente desenvolvidas, algumas só terminam de se
desenvolver lá pros 30 anos de idade. “Para a neurociência, é fantasia supor
que, ao completar um certo número de anos de vida, o cérebro, literalmente da
noite para o dia, se torne capaz de raciocínio consequente, e portanto
criminalmente imputável –e ainda esqueça todo o mal causado anteriormente.” diz
a neurocientista Suzana Herculano-Houzel em um artigo pra FOLHA. Por mais que
existam pesquisas demonstrando que a área responsável pela tomada de decisões
só esteja completamente desenvolvida por volta dos 21 anos, segundo o governo
Australiano “isso não sugere que adolescentes são incapazes de fazer decisões
por conta própria. Os resultados das pesquisas são consistentes, entretanto,
com a abordagem que diz que a capacidade individual de fazer decisão não pode
ser determinada pela idade sozinha. Isso também depende: da maturidade do
indivíduo; o desenvolvimento social dele ou dela, incluindo o tipo de
relacionamento com autoridades e fatores culturais e religiosos; e o senso
próprio dele ou dela.”. No que se trata em ter conhecimento do mundo que nos
cerca e saber o que é ou não correto em determinada sociedade, nunca os adolescentes
foram tão bem informados quanto hoje. “Hoje, o mundo é absolutamente permeado
pela comunicação, por tecnologias avançadas, por estímulos intensos desde cedo
e a gente percebe claramente que o desenvolvimento acelera também, ainda que a
maturidade seja um processo longo, que pode durar uma vida inteira” diz a
psiquiatra forense Kátia Meckler da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Publicado no site A Direita Brasileira Em Ação
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Fontes:
- SINASE 2012
- População Carcerária 2010
- População Carcerária 2012
- Rio adolescente/hora
- Punição aqui e nos outros países
- Regras do PCC na Fundação Casa
- Violência nos EUA
- Violência no Brasil
- Índice de Criminalidade Mundial 2015
- 83% !!!!!
- Vagas no Sistema Socioeducativo
- Site do Governo Australiano sobre decisões adolescentes
- Suzana Herculano-Houzel sobre a maioridade penal
- Psiquiatra Forense sobre decisão aos 16 anos
- Comportamento de risco nos jovens ao longo dos anos, comohoje eles são mais conscientes.
- Risco e racionalidade em tomadas de decisões adolescentes(Cornell)
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